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“Se o BC não fosse independente, Selic não estaria em 15%”, diz chefe da Galapagos

Tatiana Pinheiro entende que a Selic pode cair 4 pontos até o fim do ano, chegando ao patamar de 11% para incentivar mais investimentos

Da Redação com agências Fonte: https://brazileconomy.com.br/entrevista

Chegou o ano da eleição e com ele as iminentes quedas na taxa Selic. Na primeira decisão do ano, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) decidiu manter a Selic em 15%, que deixa o País com a segunda maior em termos reais e a quarta taxa nominal do mundo. É o maior patamar desde julho de 2006, quando passou de 15,25% para 14,75%. Para entender melhor o cenário, o BRAZIL ECONOMY conversou com Tatiana Pinheiro, estrategista-chefe da Galapagos Capital, que conta por passagens no BNP Paribas Asset Management e Santander, onde ficou cerca de dez anos. Confira:

Tatiana Pinheiro, economista-chefe da Galápagos: não há queda de braço entre governo e BC

Qual a visão da Galapagos Capital sobre o cenário dos juros para 2026?
A Selic deve chegar em 12,25% em dezembro deste ano, de acordo com as previsões como um todo, mas aqui na Galapagos achamos que poderia chegar a cerca de 11%. Tem mais espaço para cortes ao longo do ano porque nossa avaliação é que desde janeiro do ano passado a taxa de juros real tem rodado em torno de 9,5%. Lembrando que quando os cortes chegarem, esse efeito vai demorar um pouco para fazer efeito e por isso deve acontecer logo.

E o que explica esse cenário positivo para cortar os juros?
Este movimento atual é o mais longo e com o maior aperto monetário desde o ano 2000 e as decisões do Copom são sempre variações do custo benefício. A inflação do ano passado fechou em 4,26%, dentro do intervalo de flutuação da meta. Foi um dado positivo, já que a a expectativa dos economistas é que a inflação bateria 6%, mas ficou abaixo não só por motivos exógenos, como as safras no campo que baixaram o valor dos alimentos, mas teve um efeito causado pela taxa de juros altas ao longo do ano que reduziram os valores de bens industriais. Ou seja, a política monetária ajudou sim a desinflacionar. Por isso que o Brasil não precisa do aperto monetário de antes.

E por qual motivo a senhora acha que esse corte vem demorando tanto para acontecer?
Acredito que é porque o BC teve a questão da mudança da presidência em 2025. Além disso, 2024 foi marcado por uma grande depreciação cambial, então ele abre 2025 com uma pressão inflacionária grande que felizmente não se confirmou. A moeda caiu, mas podia continuar depreciando, já que a atividade econômica estava bastante aquecida, com o PIB acima de 3%. Isso era acima do PIB potencial que roda entre 2 e 2,5%. Todo este cenário fez com que o BC colocasse a taxa em 15% em junho. A questão agora é olha para frente. Tivemos sim um ganho de credibilidade por parte do Copom que não permitiu que a depreciação cambial virasse inflação. Então agora é a hora de calibrar esse corte na taxa de juros. É unânime que o BC está cada vez mais próximo desse ciclo de corte de juros, mas esse colegiado precisa melhorar a comunicação com o mercado.

Em que sentido?
Em dezembro do ano passado, o colegiado se pronunciou que o patamar de 15% é ideal. Isso não cabe mais e todos sabem que a Selic vai cair. Por isso, precisam se comunicar melhor.

Os clientes da Galapagos concordam com sua visão sobre a necessidade de cortar os juros?
Temos uma gama enorme de clientes. Na média, mesmo com todos estes perfis, a noção deles é que os juros já podiam ser cortados há um bom tempo e que a maneira que está eleva o custo de dívida e crédito, além de fazer as pessoas e empresas postergarem tomadas de decisão e investimentos.

A senhora concorda com a ideia de que há uma queda de braço entre o BC e o governo diante das declarações recentes do ministro Haddad criticando a taxa Selic no patamar que está?
Discordo, eu não vejo uma queda de braço. Isso são headlines de como jornalistas escutaram as frases. O que eu vejo é que o Haddad tem um compromisso com a meta fiscal, então em um cenário onde a meta é curta e comedida, como foi especificamente em 2025, cria-se um pré-requisito para ter uma política monetária diferente do que a gente vê agora. Se tivesse realmente uma queda de braço ou se o Banco Central brasileiro não fosse realmente independente, a Selic não estaria em 15%. Vejo que o BC no Brasil é independente e tem mantido os juros onde acha melhor. Além disso, historicamente tivemos vários ministros da Fazenda falando suas opiniões.

E sobre a ideia de que a dívida pública brasileira vai ser tornar impagável nos próximos anos? A senhora concorda?
Não concordo com essa ideia. O câmbio apreciou e saiu de R$ 6,26 para bater cerca de R$ 5,25 nos últimos dias. Se o País caminhasse para um cenário fiscal deste tipo, onde a dívida ficaria impagável, não existiria apreciação cambial como vemos agora. E pensando nos próximos anos, a política monetária brasileira tem dado efeitos e vemos provas sucessivas da sua eficiência.

FONTE : https://brazileconomy.com.br/entrevista/ – Repórter; Guilherme Câmara