Entre o cinema, a inteligência artificial e a transformação do consumo: o que o novo filme “O Diabo Veste Prada” revela sobre o atual momento do varejo contemporâneo
Por Vanessa Moço, CEO da Almar
O varejo sempre foi sensível aos movimentos culturais, mas há cenários em que essa relação deixa de ser reativa e passa a redesenhar a lógica de consumo. O retorno do filme ‘O Diabo Veste Prada’ ao centro das conversas é um desses momentos. Mais do que um fenômeno nostálgico, ele atua como gatilho contemporâneo de comportamento, ativando desejo, repertório estético e novas dinâmicas de consumo. Se em 2023 o impacto de ‘Barbie’ se materializou nas ruas e nos negócios – com domínio do rosa, crescimento de 20% em segmentos como recreação, lazer e alimentação (Cielo) e mais de 100 parcerias globais de marcas, segundo a Mattel — agora observamos um movimento que se expande além do físico e das cifras. A diferença está na inteligência artificial, que amplia esse imaginário e transforma sua apropriação pelo consumidor. Conteúdos visuais criados em IA passam a ocupar as redes com rapidez. Consumidores se inserem em narrativas do filme, recriam estéticas icônicas, experimentam visuais e interagem simbolicamente com personagens como Miranda e Andy.![]() A experiência deixa de ser contemplativa e passa a ser participativa, personalizada e compartilhável — o que ajuda a explicar por que 73% dos consumidores consideram a experiência decisiva na jornada de compra, segundo a PwC. O varejo físico acompanha esse movimento ao traduzir referências culturais em ativações. Coleções cápsula, experiências imersivas e agendas exclusivas ganham espaço nos shoppings, que passam a funcionar como extensões desses fenômenos. Marcas como Havaianas já exploram essa lógica ao conectar produto e narrativa cultural. No Rio de Janeiro, essa dinâmica se evidencia na prática. Durante o Rio Fashion Week, os shoppings atuaram como extensão das tendências das passarelas, reforçando seu papel como espaços de experiência.O calendário tradicional perde força como motor do varejo. Datas como Dia das Mães e Natal seguem relevantes, mas já não sustentam, sozinhas, a conexão com um consumidor que responde mais a contextos culturais do que a estímulos previsíveis. As novas gerações, que já representam mais de 60% do consumo em diversas categorias, segundo a McKinsey & Company, respondem a repertórios mais dinâmicos, impulsionando fenômenos como o “efeito Prada”.Programas de relacionamento ganham papel estratégico ao transformar dados em inteligência. Hoje, 71% dos consumidores esperam experiências personalizadas, reforçando estratégias mais orientadas por dados.O que está em jogo não é apenas a venda de produtos, mas a capacidade de interpretar cultura e traduzi-la em experiência. O “efeito Prada + I.A.” é um sinal de um varejo estruturado na interseção entre cultura, tecnologia e comportamento. Ignorar esse movimento não significa apenas perder uma tendência. Significa perder relevância em um cenário em que o consumo é guiado por significado. |










