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Ser mãe muda a liderança? O impacto real da maternidade na alta gestão

Para a Thais Pegoraro, sócia da EXEC, a experiência de maternar amplia repertório, afina a priorização e reposiciona a forma de liderar

Da Redação com agências – foto divulgação

Durante anos, o debate sobre maternidade e carreira seguiu duas narrativas. A primeira, mais romantizada, vende a imagem da mulher que concilia filhos, vida pessoal e carreira sem dificuldades. A segunda, por sua vez, é mais dura e insiste em tratar a chegada dos filhos como um impedimento para a mulher seguir sua trajetória profissional. Porém, na prática, hoje o cenário é outro. Cada vez mais as executivas passam a liderar sob a lógica da maternidade. Isso se traduz no fato de que ser mãe não reduz a potência da liderança de uma mulher, mas reorganiza-a.

 Para Thais Pegoraro, sócia da EXEC, consultoria especializada em recrutamento e desenvolvimento de alta liderança, a maternidade amplia o repertório da executiva e afina seu olhar para tudo o que a cerca, incluindo o uso de recursos, diferença entre o que é urgente e o que é importante, leitura do contexto e a consciência sobre o que realmente sustenta o todo. “Ela trabalha a musculatura da visão do todo e, com isso, se depara com habilidades que ela sequer sabia que tinha. A barra da vida foi elevada para um outro patamar, os desafios se multiplicaram, as variáveis são novas e a margem de improviso diminui. Tudo isso compõe um novo universo de atuação para ela”, comenta.

Thais Pegoraro, sócia da EXEC,

Segundo Thais, a maternidade é uma época da vida em que a líder é mais colocada à prova. “Todas as dimensões de prioridade, gestão do tempo e de produtividade passam a ser olhadas sob outra perspectiva. Ao atravessar a maternidade, a líder é exposta a uma multiplicidade de demandas que exigem critérios mais apurados de escolha. Isso tudo faz com que a mulher se descubra mais potente, capaz, eficiente e humana, uma vez que ela incorpora o erro e as perdas como parte da gestão do risco do seu dia a dia”.

 Na América Latina, mulheres ocupam, em média, 16% das cadeiras de conselhos, 9% dos cargos de CEO e 12% das posições de CFO, segundo dados da WEPs/ONU Mulheres. Em um mercado ainda marcado por desigualdade no topo, a maternidade segue sendo lida com frequência como uma variável de disponibilidade, quando, na verdade, pode ser justamente um ponto de inflexão na forma de decidir, priorizar e liderar.

Isso se torna central porque tira força de um equívoco recorrente no ambiente corporativo: o de que priorizar significa apenas gerir melhor o tempo. “Uma executiva pode ter uma agenda organizada e, ainda assim, não saber escolher o que realmente deve priorizar. A maternidade desmonta a ideia de disponibilidade ilimitada e torna mais nítida a finitude das horas. Ao multiplicar papéis e reduzir a margem de erro, força uma visão mais ampla do que é terceirizável, inegociável e do que não é central”.

Alguns pratos vão cair
A mesma lógica ajuda a entender o refinamento de outras competências de liderança. A maternidade, segundo Thais, trabalha a visão do todo, a antecipação de risco, a capacidade de planejamento e a resiliência. “A líder deixa de operar sob a fantasia do equilíbrio perfeito e passa a conviver com uma verdade menos confortável, de que alguns pratos vão cair. Essa aceitação revela a compreensão de que liderar bem não envolve eliminar a complexidade, mas tomar decisões consistentes dentro dela”.

A relação com o tempo também muda. A produtividade deixa de ser medida por uma lógica de presença constante e passa a ser avaliada pela qualidade das escolhas, pela nitidez das prioridades e pela capacidade de preservar energia para o que de fato move a vida e a empresa. Thais descreve esse movimento como a passagem para uma lógica de não perfeição para uma suficiência bem administrada.

Nesse cenário, delegar tarefas para o time deixa de ser apenas uma virtude comportamental e se torna uma necessidade estrutural. Ter uma rede de apoio muda o cenário. “Com menos tempo disponível, a executiva precisa confiar profundamente em seu time. Ela precisa garantir que as pessoas tenham as habilidades necessárias, conheçam profundamente seus papéis e responsabilidades. A combinação desses fatores retroestimula uma confiança mútua. Essa mesma lógica também se aplica no cuidado com os filhos. Ter em casa pessoas que ela confia para delegar uma parte dessa tarefa enquanto está impossibilitada de estar ali é fundamental.”, enfatiza a sócia da EXEC.

 

A mulher muda, mas os vieses permanecem
 Os dados ajudam a mostrar por que a discussão sobre maternidade e liderança é estrutural. Um estudo publicado no Journal of Human Resources reforça que a chamada motherhood penalty (penalização da maternidade) continua produzindo efeitos reais sobre renda e progressão de carreira. Na América Latina, o relatório da WEPs/ONU Mulheres destacou que mulheres ocupam, em média, apenas 16% das cadeiras de conselhos, 9% dos cargos de CEO e 12% das posições de CFO.

 No Brasil, a EPIC apontou que, em 2025, a diferença salarial média entre homens e mulheres chegou a 21,2%. Em outras palavras, a maternidade ainda opera dentro de um mercado que já penaliza a presença feminina na liderança antes mesmo da maternidade.

Os vieses permanecem muito ativos, segundo Pegoraro. O mais recorrente é o da disponibilidade, ou seja, a suspeita de que a mulher-mãe estará menos pronta, menos livre, menos conectada ou menos capaz de assumir desafios maiores. “Trata-se de uma leitura limitada, porque ignora o que a maternidade frequentemente produz de mais valioso para a liderança: repertório, antecipação, discernimento, priorização e capacidade de lidar com complexidade sem depender da ilusão do controle total. O problema, portanto, não está na potência da executiva. Está na lente ainda estreita com que muitas organizações a enxergam. Ou seja, os vieses permanecem, mas a mulher muda”, reforça a sócia da EXEC.

 Para Thais, o desafio mais relevante é construir consciência de liderança nas organizações. “Sensibilizar todos sobre a importância de ter um espaço convidativo, onde a mulher não tenha vergonha de dizer que está grávida ou falar sobre planejamento familiar. Programas que trabalhem a alta liderança e seus times sobre o tema são um dos primeiros passos para desenvolver a consciência desse momento tão bonito e importante que é a maternidade”.
A experiência da maternidade amplia o repertório da mãe, o que gera benefícios indiretos para as organizações. “Ganha uma líder com repertório mais amplo, mais preparada para lidar com tensão, mais consciente de prioridades e mais eficiente no uso do próprio tempo. Além disso, também terá uma profissional mais engajada, desde que a organização ofereça um espaço legítimo para que ela ocupe os papéis que a vida lhe apresenta sem precisar ocultá-lo”, afirma Pegoraro.

 Como conciliar carreira e maternidade?
Na prática, a contribuição da maternidade para a liderança é menos sobre heroísmo e mais sobre maturidade. Não se trata de dizer que toda executiva que é mãe lidera melhor do que aquela que não exerce a maternidade, mas sim reconhecer que a experiência de maternar, quando não é sufocada por vieses e cobranças irreais, pode refinar competências decisivas para a alta gestão: leitura de contexto, antecipação de risco, priorização, delegação e construção de times confiáveis.Thais traz cinco recomendações práticas para as mulheres que desejam conciliar maternidade e liderança sem abrir mão do desenvolvimento profissional e da saúde mental:

  • Aceite que alguns pratos vão cair: eleja quais serão eles;
  • Entenda o seu cotidiano: quais as tarefas que só dependem de você e não consegue delegar. Tenha claro quais são aquelas que são essenciais para sua vida parar em pé;
  • Saiba aonde quer chegar com sua carreira. Tenha um plano realista e prático que você quer colocar em prática após a maternidade, e o tempo de cada passo;
  • Tenha um mindset voltado para a sucessão, escolhendo quais pessoas estarão aptas a sentar em sua cadeira;
  • Tenha uma rede de apoio no trabalho e em casa, para ter tranquilidade onde estiver.

Juntas, essas orientações apontam para uma liderança mais consistente, menos obcecada pelo equilíbrio e mais comprometida com inteligência de decisão.