Por Sergio Favarin*
Em março de 2026, o TikTok protocolou junto ao Banco Central do Brasil pedidos de licença para operar como Instituição de Pagamento e Sociedade de Crédito Direto no Brasil. Os alvos são seus 131 milhões de usuários brasileiros, agora também candidatos a contas digitais, transferências e empréstimos integrados à plataforma. Isso vai muito além de uma expansão de negócios: é uma disputa estratégica pelo controle da jornada de consumo.
Quando alguém passa o cartão em uma loja de conveniência ou faz uma compra pelo celular, raramente pensa no que acontece nos milissegundos seguintes: autenticação da bandeira, análise de risco, autorização, liquidação e transferência de recursos. Essa infraestrutura invisível se tornou o principal campo de batalha entre fintechs, bancos, adquirentes e Big Techs. Quem controla o pagamento passa a controlar também a relação com o consumidor.

O modelo não é novo, mas ganhou escala sem precedentes. O Mercado Pago nasceu para financiar o ecossistema do Mercado Livre e hoje disputa espaço diretamente com bancos tradicionais. A lógica é simples: oferecer crédito exatamente no momento da decisão de compra. Não por acaso, as fintechs se tornaram o segmento mais forte do ecossistema de startups da América Latina. O Brasil lidera esse movimento com mais de 1.700 fintechs em operação e uma população altamente digitalizada: segundo o Relatório de Cidadania Financeira do Banco Central, mais de 96% dos adultos brasileiros já possuem conta bancária ou de pagamento.
O TikTok representa um salto qualitativo nessa corrida. Plataformas de entretenimento já sabem o que seus usuários desejam consumir, e os algoritmos deixaram de apenas recomendar conteúdo para também estimular compras em tempo real. Com o TikTok Shop e um braço financeiro próprio, descoberta, desejo, compra e pagamento passam a acontecer dentro do mesmo ambiente, replicando no Brasil o modelo já consolidado pelo Douyin Pay na China. O Meta Platforms também avança nessa direção. A tendência é clara: transformar aplicativos em ecossistemas completos de consumo.
Essa mudança acontece em um mercado gigantesco. Somente no segundo semestre de 2025, o Brasil registrou 78,4 bilhões de transações de pagamento, movimentando R$ 68,2 trilhões. Nesse cenário, o Pix já responde por mais da metade das operações realizadas no país. O ponto central é que não basta mais participar do pagamento: é preciso dominar toda a experiência digital do consumidor.
Por trás dessa transformação existe um enorme desafio tecnológico. Boa parte do sistema financeiro ainda opera sobre aplicações legadas que precisam ser modernizadas para suportar operações em tempo real, jornadas digitais contínuas e inteligência artificial aplicada à tomada de decisão. Em datas críticas, como Black Friday, isso significa processar milhões de operações simultaneamente sem interrupção. É nesse ponto que a IA deixa de ser tendência e passa a ser infraestrutura.
Os números mostram a velocidade dessa mudança. O volume de crédito concedido por fintechs digitais no Brasil alcançou R$ 35,5 bilhões em 2024, crescimento de 68% em relação ao ano anterior. Ao mesmo tempo, empresas como a Mastercard já realizam testes de pagamentos agênticos com IA na América Latina, utilizando autenticação biométrica, tokens dinâmicos e agentes inteligentes capazes de executar compras em nome do consumidor. O pagamento agêntico deixou de ser conceito futurista e começa a ganhar forma prática.
Mas essa evolução também traz riscos importantes. Segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo, mais de 80% das famílias brasileiras estavam endividadas em março de 2026. O público mais exposto às plataformas digitais – especialmente jovens entre 16 e 30 anos – também costuma ter menor educação financeira e maior vulnerabilidade ao consumo impulsivo estimulado por algoritmos. Quando a mesma plataforma recomenda um produto, oferece crédito e facilita a compra instantânea, a fronteira entre conveniência e indução se torna cada vez mais tênue.
Nesse contexto, o papel da regulação será decisivo. O Banco Central brasileiro construiu uma das infraestruturas regulatórias mais modernas do mundo e ampliou o acesso ao mercado financeiro sem renunciar a exigências de capital, governança e segurança. O desafio agora é garantir que a velocidade da inovação seja acompanhada pela maturidade dos mecanismos de proteção ao consumidor.
O Brasil reúne condições únicas para liderar essa nova fase dos meios de pagamento: infraestrutura digital avançada, referência mundial em pagamentos instantâneos, ecossistema fintech maduro e uma população altamente conectada. A questão que definirá os próximos anos não será apenas se uma transação foi aprovada, mas se ela aconteceu no melhor interesse do consumidor. Essa resposta ainda está sendo construída – e o Brasil tem a oportunidade de liderar esse debate.
*Sergio Favarin é Business Vice President da GFT Technologies no Brasil










